HOW CAN ONE KNOW IN SUCH DARKNESS? | Portas Abertas da residência com Myriam Lefkowitz

© Pauline Hurel                                                                  montagem: Simon Ripoll Hurier

 

17 de Julho | 18h30

Sala Estúdio Teatro Municipal Campo Alegre

 

“How can one know in such darkness?” é um dispositivo coreográfico para um espectador e um performer com  duração de cerca de uma hora, que acontece em silêncio. O espectador é convidado a deitar-se no centro do palco e a fechar os olhos. A experiência consiste na percepção de um espaço multi-dimensional construído através da mediação do toque, da ativação de certos objetos e materiais, dos movimentos do performer em torno do corpo deitado, dos sons do espaço e das mudanças constantes de atenção do espectador.

Após duas semanas de residência e de diversas sessões individuais, Myriam Lefkowitz irá partilhar uma série de práticas que conseguiu identificar e desenvolver ao longo deste tempo, activando em colectivo o dispositivo criado.

 

HENRY MICHAUD, O infinito turbulento

Entramos numa zona de choques.

Fenómeno das multidões, mas ínfimo, infinitamente tormentoso.

Olhos fechados, temos visões interiores.

Milhares e milhares de pontos microscópicos deslumbrantes, diamantes deslumbrantes, relâmpago de micróbios.

Palácios com inúmeras torres que giram no ar sob uma pressão desconhecida. Arabesques, festões. Da feira. Da luz extrema que,

brilhante, faz girar os teus nervos, das cores extremas que te mordem, te assaltam e, brutais, nocivas, as suas associações.

Da tremura das imagens. Do vai-e-vem.

Uma óptica inebriante.

Imagens interiores mais brilhantes, mais numerosas, mais coloridas, mais agitadas, mais enredadas, mais

(Quando se abrem os olhos, os objectos que vemos à nossa volta parecem por vezes pulular no local, não estar mais a uma distância precisa e permanente. Apresentam um aspecto mais interessante, como um orvalho enevoado de colorações punctiformes variadas).

Tornamo-nos sensíveis às mudanças mais subtis (Sanguíneas? Celulares? Moleculares?), às ínfimas flutuações (da consciência? Da cinestesia?) que, para observar melhor, estamos de resto, talvez em simultâneo, ocupados a visualizar.

Mas de qualquer modo, perdemos pé. Perdemos a consciência destes pontos de apoio, dos seus membros e órgãos, e das regiões do seu corpo, o qual não importa mais, fluído entre fluídos. Perdemos a sua morada. Tornamo-nos estranhos a nós próprios.

Ao mesmo tempo que o universo mudou, entramos num estado segundo, visões e fluidez, verso e reverso da mesma peça.

Foi preciso abandonar as amarras do confortável estado primeiro onde nos encontrávamos, sobre o qual nos apoiávamos, e perder as suas excelentes localizações, que tinham o infinito fora dos muros.

Na cabeça perturbada, um surpreendente “tudo de uma vez” é percebido.
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Myriam Lefkowitz  (1980), identifica-se como performer.
Desde 2010 foca a sua pesquisa em questões de atenção e percepção.
O seu trabalho tem sido apresentado em Le Mouvement, Situations, Family Business, The Center for Contemporary Art, Bienal de Veneza, Kunsteverein NY, The French Cultural Institute, L’Usine,  Nouveau Festival, Szene Salzburg e Creative Time Summit.
Em 2011, participou no mestrado de experimentação em Arte e Política, fundado por Bruno Latour e desde 2013 integra a comissão de ensino da Ciência Po Paris.
É regularmente convidada para dar workshops e palestras no Museu de Arte Moderna Georges Pompidou (Paris), no Val Museu Mac (Ivry), no Palais de Tokyo (Paris), na Open School East (Londres), na HEAD (Genève) e no Royal Institute of Art (Investigação Artística e Desenvolvimento, em Estocolmo)
Desde 2013, colabora com o artista Simon Ripoll Hurier sobre a relação entre ver e dizer, através de um dispositivo de descrição dos musicais americanos dos anos 30.
Em 2014-2015, é artista em residência nos Laboratoires d’Aubervilliers (Paris), contexto no qual este projecto começou a ser criado.