Arquivo Dançante no DDD

Arquivo Dançante é um projecto coordenado por Cristiana Rocha, que se constitui como um arquivo digital online de artes performativas, a iniciar em 2016 a partir do acervo documental do Núcleo de Experimentação Coreográfica – NEC, no qual se reúne uma grande variedade de abordagens da criação coreográfica nacional e que foi desenvolvido ao longo dos anos em parceria com os artistas e as estruturas de produção com que trabalham.

Este projecto inscreve-se nas correntes actuais que problematizam o arquivo e a sua relação com a performance e procura, através de momentos de encontro e experiências que convocam uma diversidade de temporalidades, constituir-se também como facilitador do cruzamento entre pesquisas académicas e artísticas, entre espaços de criação e preservação, entre práticas coreográficas e arquivísticas.

Quando acessível online, fará uso das novas tecnologias da informação para democratizar e diversificar as vias de acesso ao conhecimento, desafiar o sentido de propriedade, desencadear e manifestar o múltiplo, entendendo o arquivo como espaço social performativo, agente catalisador de novas práticas de activação do legado comum e sensível ao contexto que o anima.

 Neste primeiro momento público do projecto, que antecede ainda a sua concretização no meio digital, convidamos três especialistas – a investigadora, dramaturga, escritora e artista interdisciplinar Paula Caspão, o investigador de pós doutoramento na Universidade de Antuérpia e no Reserach Centre for Visual Poetics Timmy De Laet, assim como o coreógrafo, performer, investigador e fundador da companhia Re.Al João Fiadeiro a relacionarem-se com o tema Transplantes Temporais a partir da sua prática específica, o que resulta em três modos singulares de pensar e se situar na multidimensionalidade do tempo.

 

A.D.#1  Transplantes Temporais

Especulações Horizontais

    em zonas de (trans)formação arquivística

   – Paula Caspão

Sou um documento.

Pare. Recapitule. Ninguém sabe ao certo o que pode um documento.

Venho de um campo de intercambio metodológico entre a coreografia experimental e as práticas de documentação.

Pare. Recapitule. Try to re-member (the kind of September?).

Não percebo. Cante. Transforme.

Atravessei um campo, é de lá que venho. Tenho andado a atravessar campos.

Repita. Reformule.

Não consigo deixar de sentir os campos, ao cruzar-se.

Pare no cruzamento:

Práticas do arquivo como agências de encontros.

 

Paula Caspão (P/F)

Investigadora, artista transversal e dramaturgista, trabalha internacionalmente entretecendo práticas coreográficas, discursivas e performativas com outras áreas de pensamento, e experimentando formatos de investigação que combinam metodologias e conhecimentos heterogéneos. Para acolher estes cruzamentos e pôr ênfase na poética e nas formas de vida específicas implicadas em qualquer circunstância de investigação e/ou composição, delimitou uma área exploratória de miscigenação entre práticas teóricas e praticas artísticas que dá pelo nome de Cabinet of T-Fi (sendo T-Fi a abreviatura de Theory-Fiction, fazendo eco ao Sci-Fi de Science Fiction, bem como ao Cabinet de Curiosités). Juntamente com Bojana Bauer, Ivana Müller e Joachim Hamou fundou INSTITUT, uma plataforma que explora dispositivos de criticalidade a partir das artes performativas, com base em Paris. Doutorada em filosofia (epistemologia e estética) pela Universidade de Paris-10, é actualmente investigadora integrada no Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, e investigadora de pós-doutoramento no Centro de Estudos de Teatro da Universidade de Lisboa (FCT). Desde 2015/2016 aborda as ecologias, as performances e as poéticas que constituem a História, o Museu e o Arquivo, nomeadamente re-pensando a curadoria e as instituições de colecção e de preservação como práticas sócio-coreográficas de reactivação e de transformação, mais do que como modos de transmissão. Faz parte do colectivo baldio|Performance Studies, e é autora de relations on paper (2013) e The Page As a Dancing Site (2014).

 

A persistência da Performance: Genes, Transplantes e o Presente Residual

– Timmy De Laet

Nos últimos anos, a controversa questão de como a performance ao vivo pode ser documentada e arquivada recebeu ampla atenção, pelo menos devido ao aumento da reactivação artística e à tendência entre os artistas contemporâneos de olhar para trás para o passado da sua arte. Este desenvolvimento tem desafiado a crença dominante de que a performance é inevitavelmente transitória, dando lugar a visões alternativas que reconhecem a sua persistência. No entanto, apesar do crescente reconhecimento “das formas em que a performance permanece, mas continua a ser diferente” – como Rebecca Schneider o expressou (2011, 98) -, o significado actual deste tipo de remanescente diferencial é notoriamente difícil de entender.
Mas e se começássemos a pensar na performance em termos de genes? Poderá a performance ter um ADN que não só fortalece a sua aparência, como também permite a sua perseverança? E somos nós capazes de desatar esta estrutura genética de qualquer determinismo e antes encará-la como uma estrutura versátil que permite a uma determinada peça ser transmitida e transformada ao longo do tempo?
Nesta conferência, Timmy De Laet vai reflectir sobre os múltiplos mas singulares tempos da performance, numa tentativa de ter controlo, ainda que temporariamente, sobre o seu indescritível vir-a-ser e a possibilidade da sua existência continuada. Baseado no trabalho de Gilbert Simondon, Ugo Perone, e Adrian Johnston, ele vai olhar para a passagem do tempo, em busca de genes e transplantes que podem mostrar como a performance não passa, mas é repassada, pois tem lugar num presente que nós podemos querer chamar de residual.

Timmy De Laet (B) é um investigador de pós-doutoramento na Universidade de Antuérpia e no Research Centre for Visual Poetics. Teve formação de actor no Royal Conservatoire de Antuérpia, formou-se em Estudos Teatrais na Universidade de Antuérpia e estudou Teoria da Dança na Freie Universität Berlin. Obteve o seu PhD em 2016, pela dissertação intitulada “Re-inventing the Past: Strategies of Re-enactment in European Contemporary Dance”. Timmy está actualmente a trabalhar como investigador no projecto ” The Didascalic Imagination ” (financiado pela FWO’s Research Foundation Flanders), que examina os cadernos de encenadores como documentos genéticos de processos criativos em artes performativas contemporâneas. Os seus interesses de pesquisa incluem a natureza reiterativa da performance ao vivo em relação a práticas de arquivo, documentação e re-activação. Ele foi o vencedor  do Prémio Routledge em 2011 pelo trabalho de pesquisa de excelência apresentado na conferência PSi # 17 em Utrecht.

 

A presença da ausência

– João Fiadeiro

Em “O que fazer daqui para trás” João Fiadeiro explora o tempo – duracional, suspenso, intervalar – ao “mesmo tempo” que foca a sua atenção naquilo que fica, no que foi esquecido, no resto.

O “resto” cria “vazio”. E é a prova da ausência de uma presença. Ou melhor, é a presença de uma ausência. É no “resto” que vamos encontrar os traços e os rastos para darmos início à impossível tarefa de reconstruir o mundo, uma e outra vez. O resto é também o que está entre o corpo e “a presença do outro no corpo”, uma fuga permanente para coisas que ainda não são, para o que as coisas podem. “O que fazer daqui para trás” posiciona-se entre a dúvida e a possibilidade. Onde o não-dito é mais importante do que aquilo que se diz, onde a ausência se sobrepõe à presença e onde o drama não vem do teatro mas daquilo que os corpos – dos performers e dos espectadores – podem (e têm e trazem). A sombra indica-nos a presença da luz, o silêncio a presença do som e a ausência a presença do acontecido. Da sombra, do silêncio e da ausência, eis – para quem se pergunta – aquilo que esta peça trata.

Tomando “O que fazer daqui para trás” (apresentada no dia anterior) como referência para esta proposta, João Fiadeiro discorre sobre estas ideias, materializando em palavras e novas imagens o ainda não visível.

João Fiadeiro (PT) pertence à geração de coreógrafos que emergiu no final da década de 80 e que, na sequência do movimento “pós-moderno” americano e dos movimentos da Nouvelle Danse francesa e belga, deu origem à Nova Dança Portuguesa. Grande parte da sua formação é feita entre Lisboa, Nova Iorque e Berlim, tendo depois sido bailarino na Companhia de Dança de Lisboa (86-88) e no Ballet Gulbenkian (89-90). Em 1990 fundou a Companhia RE.AL que, para além da criação e difusão dos seus espetáculos, apresentados com regularidade um pouco por toda Europa, Estados Unidos, Canadá, Austrália e América do Sul – acompanhou e representou artistas emergentes. Funda o Atelier Real em 2005, estrutura que acolhe artistas em residência e programa eventos transdisciplinares. João Fiadeiro tem orientado com regularidade workshops em diversas escolas e universidades nacionais e internacionais. Atualmente frequenta o doutoramento em Arte Contemporânea do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra.